Por Heloisa Nogueira e Pedro Moura
Da reestruturação extrajudicial à recuperação judicial em dois anos: o padrão que se repete nas gigantes do comércio brasileiro.
No domingo, 16 de agosto de 2026, o Grupo Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. A varejista fundada por Samuel Klein, símbolo do comércio popular brasileiro havia décadas, declarou passivos de R$ 17,3 bilhões, dos quais R$ 1,4 bilhões, ou 94,8%, estão nas mãos de credores quirografários, que significa dizer que são credores com nenhuma garantia real. O pedido chega após apenas dois anos de a companhia ter homologado uma recuperação extrajudicial que reestruturou R$ 4,8 bilhões em dívidas.
Ao fim do primeiro semestre de 2026, o varejo brasileiro somava 986 empresas em recuperação judicial, um salto de 20,4% em relação ao mesmo período do ano anterior. Para cada 1,4 empresa em recuperação no setor, existe uma que já teve a falência decretada, hoje, 686 casos.
O que estamos vendo não é mais uma sucessão de crises pontuais, mas um padrão estrutural de endividamento que atinge desde redes centenárias até varejistas de nicho, e que nós como advocacia empresarial especializada explicamos para clientes, credores e investidores a construção dessa tempestade.
O diagnóstico técnico da própria Casas Bahia, exposto na petição inicial, resume o que se repete artigo após artigo nos pedidos de Recuperação Judicial do setor: juros elevados, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre o consumo. Com a Selic ainda em patamar restritivo e o endividamento das famílias brasileiras batendo recorde histórico, próximo de 80% dos lares, o varejo de bens duráveis é o primeiro a sentir o freio de mão. Quando a parcela do consumidor fica mais cara e mais escassa, o giro de estoque trava, e o capital de giro das varejistas que historicamente depende de financiamento externo: seca junto.
A isso se soma um segundo vetor, menos financeiro e mais estrutural: a transição digital incompleta. Redes que mantiveram grande parte da receita presa a operações físicas, com toda a estrutura de aluguel, folha e logística que isso implica, perderam competitividade diante de concorrentes que já operavam com formatos enxutos e marketplace. A própria Casas Bahia fechou 298 lojas e reduziu quadro de funcionários no mesmo movimento que antecedeu o seu pedido de Recuperação Judicial.
O ponto mais relevante do caso Casas Bahia, sob a ótica da advocacia de reestruturação, não é o valor da dívida, é a reincidência. A companhia já havia convertido bilhões em capital, consolidando a gestora Mapa Capital como acionista controladora e reduzindo drasticamente sua alavancagem financeira. Ainda assim, dois anos depois, voltou à Justiça. Isso expõe uma fragilidade que a recuperação extrajudicial, por desenho, não resolve: ela renegocia passivo financeiro, mas não necessariamente endereça a insuficiência estrutural de geração de caixa operacional ou até mesmo o modelo de negócio que se tornou obsoleto frente às novas práticas de consumo.
A lição para o mercado de crédito e para o próprio Judiciário é direta: uma reestruturação bem-sucedida no papel, dívida menor, contas mais organizadas ainda assim podem conviver com uma empresa que continua perdendo dinheiro no dia a dia. O caso ecoa outros marcos do varejo brasileiro: a Americanas, que em 2023 protocolou a quarta maior RJ da história do país (R$ 43 bilhões, atrás apenas de Odebrecht, Oi e Samarco) após revelar inconsistências contábeis de R$ 20 bilhões, também segue enfrentando desafios que vão além do simples ajuste das dívidas.
Em suma, o caso Casas Bahia amarra os dois fios que abrimos neste texto, e eles não pesam da mesma forma. De um lado, está o que a própria petição inicial relata: juros altos, crédito mais caro e escasso – fatores externos, que fogem do controle direto da empresa e atingem o setor inteiro. De outro, está a transição digital incompleta: um fator interno, uma escolha (ou uma demora) da própria gestão em se adaptar a um jeito novo de vender. É a soma dos dois que empurra a empresa para um clímax de crise, o externo aperta a margem, o interno tira a capacidade de reagir a esse aperto, e o resultado é o mesmo roteiro se repetindo, como já vimos na Americanas. Para quem acompanha o setor, sejam credores, fornecedores ou os próprios empresários, o recado que fica é o mesmo: entender a fundo a saúde real do negócio, não apenas o resultado que aparece no papel.
Sources:
MIGALHAS. Após prejuízo de R$ 10,1 bi, Casas Bahia pede recuperação judicial. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/quentes/462484/apos-prejuizo-de-r-10-1-bi-casas-bahia-pede-recuperacao-judicial. Acesso em: 20 ago. 2026.
INFOMONEY. Casas Bahia é só a ponta do iceberg: 986 varejistas estão em recuperação. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/business/casas-bahia-e-so-a-ponta-do-iceberg-986-varejistas-estao-em-recuperacao/. Acesso em: 20 ago. 2026.
BRAZIL JOURNAL. Casas Bahia pede RJ com dívidas de R$ 17 bilhões e negocia DIP de R$ 1 bi. Disponível em: https://braziljournal.com/casas-bahia-pede-rj-com-dividas-de-r-17-bilhoes-e-negocia-dip-de-r-1-bi/. Acesso em: 20 ago. 2026.
MONITOR MERCANTIL. Recuperação judicial das Casas Bahia expõe 3 fragilidades estruturais. Disponível em: https://monitormercantil.com.br/casas-bahia-anuncia-pedido-de-recuperacao-judicial/. Acesso em: 20 ago. 2026.