O novo governo Lula e as empresas em crise: crédito, instabilidade e os desafios da recuperação empresarial

Por Heloisa Nogueira Engel e Pedro H. Moura.

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato presidencial ocorre em um momento de crescente fragilidade financeira do setor empresarial brasileiro. Entre o segundo trimestre de 2023 e o mesmo período de 2026, o número de empresas em recuperação judicial passou de 3.823 para 6.341, crescimento de aproximadamente 65,8%, segundo levantamento do Serasa Experian. Paralelamente, os mesmos dados apontam que o Brasil alcançou, em agosto de 2026, a marca recorde de 9,3 milhões de empresas inadimplentes.

Os indicadores demonstram que o novo mandato terá início diante de dificuldades que ultrapassam a simples disponibilidade de financiamento. Embora o programa de governo Lula–Alckmin para 2027–2030 estabeleça compromissos com a ampliação do crédito produtivo, o fortalecimento dos fundos garantidores e a redução sustentada dos juros, a recuperação de empresas em crise depende também da estabilidade econômica, da previsibilidade institucional e de condições favoráveis à atividade produtiva.

Essa distinção assume especial importância diante da reação dos mercados ao resultado eleitoral. No primeiro pregão após a reeleição, o Ibovespa recuou 13,88%, enquanto o dólar comercial avançou 8,21%, em um movimento de reavaliação das expectativas dos investidores quanto aos rumos da política econômica.

Ainda que oscilações de curto prazo não permitam antecipar o desempenho dos próximos quatro anos, o episódio revela a sensibilidade das decisões de investimento às perspectivas fiscais e institucionais. Para empresas endividadas, cuja continuidade depende frequentemente de novos financiamentos e de projeções econômicas de longo prazo, a confiança dos agentes de mercado constitui elemento relevante para a reorganização de suas atividades.

O desafio do governo Lula, portanto, não se limita à ampliação da oferta de crédito, mas envolve a construção de condições econômicas e políticas que permitam às empresas recuperar sua capacidade produtiva sem transformar novos financiamentos em obrigações progressivamente mais difíceis de cumprir.

O programa de governo apresentado pela chapa reeleita dedica atenção ao fortalecimento das micro, pequenas e médias empresas, prevendo a continuidade dos fundos garantidores, a ampliação do crédito produtivo e o incentivo à modernização dos negócios.

Entre os instrumentos utilizados estão o Pronampe e o Procred 360, cujas condições foram ampliadas ao longo de 2026. Conforme anunciado pelo Ministério da Fazenda, determinadas operações passaram a admitir carência de até 24 meses, prazo total de pagamento de até 96 meses e maior tolerância quanto à existência de obrigações financeiras em atraso, observados os requisitos de elegibilidade.

As medidas representam alternativas relevantes para empresas que enfrentam dificuldades temporárias de liquidez, permitindo a reorganização dos vencimentos e a obtenção de recursos em condições potencialmente mais favoráveis. Entretanto, a ampliação do financiamento não representa, isoladamente, uma resposta suficiente à crise empresarial.

A viabilidade de uma reestruturação empresarial depende de condições que ultrapassam a renegociação das obrigações existentes. A previsibilidade das políticas econômicas, a estabilidade regulatória e a capacidade de articulação institucional também influenciam as decisões de investimento e financiamento.

Nesse contexto, a relação do novo governo com o Congresso Nacional apresenta dificuldades relevantes.

Segundo estudo do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), Lula iniciará o quarto mandato com 124 deputados de apoio consistente, 246 parlamentares de apoio condicionado e 143 de oposição. No Senado, o cenário é ainda mais restritivo: apenas 16 senadores são classificados como apoiadores consistentes, diante de 31 integrantes de apoio condicionado e 34 de oposição.

Embora a composição parlamentar não inviabilize a aprovação de propostas governamentais, ela evidencia a necessidade de negociações permanentes para a formação de maiorias. A depender da condução dessas articulações, conflitos entre Executivo e Legislativo podem ampliar a imprevisibilidade das decisões econômicas e dificultar a implementação de medidas relevantes ao setor produtivo, impactando diretamente na atividade empresarial.

Para empresas em recuperação judicial, esse quadro assume consequências particulares, a execução de um plano recuperacional exige projeções de receitas, custos e investimentos para períodos prolongados. A ausência de previsibilidade econômica e institucional pode comprometer essas estimativas, dificultar a obtenção de financiamento e ampliar a percepção de risco dos credores.

Uma empresa pode obter a aprovação de seu plano de recuperação, renegociar parcelas e contratar novos empréstimos, mas continuará vulnerável caso suas atividades não produzam resultados suficientes para suportar os custos operacionais e as obrigações assumidas. Por essa razão, a política pública de financiamento precisa ser examinada em conjunto com as condições gerais de funcionamento do mercado.

A preservação de empresas economicamente viáveis exige instrumentos de crédito acessíveis, mas também um ambiente no qual empreender, investir e gerar receitas não dependa continuamente de medidas extraordinárias de apoio estatal. A distinção é essencial para evitar que o financiamento destinado à recuperação se converta apenas em um mecanismo de postergação da insolvência.

O quarto mandato de Lula terá o desafio de conciliar a expansão das políticas de financiamento com a construção de um ambiente de maior estabilidade econômica e institucional. A ampliação do crédito produtivo e dos mecanismos de renegociação é uma resposta possível ao endividamento empresarial. Sua efetividade, contudo, dependerá da capacidade de enfrentar os fatores que comprometem a geração de resultados e dificultam a recuperação dos negócios. Dependerá também da postura do mercado, que precisará enxergar os instrumentos de reestruturação como ferramentas de preservação de valor, e não como ameaça ao crédito.

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