Por Maria Eduarda X. Soares e Heloísa Nogueira
Histórias como da Apple, Microsoft, Google e Amazon carregam, no imaginário popular, três elementos irresistíveis: o fundador visionário, a garagem improvisada e uma força de vontade, quase que heroica, suficiente para transformar uma ideia em um absoluto império. Afinal, quem não gosta de acreditar que uma “ideia inovadora” combinada com força de vontade bastam para mudar o mundo?
No entanto, a verdade é mais complexa. Essas narrativas inspiradoras, embora sedutoras, omitem o fundamental detalhe de que nenhum desses negócios chegou ao topo apenas com a garra e a boa ideia, mas contaram com estratégia, estrutura, e uma rede de profissionais, e até parceiros, extremamente capacitados.
Não se trata de um olhar pessimista ou “frustrante”, mas a nua realidade. Uma boa ideia pode, sem dúvidas, nascer em um ambiente improvisado. No entanto, a sua sobrevivência depende de gestão competente, objetivos bem traçados, compliance e organização. Mesmo no estágio inicial, você pode ter certeza de que estes impérios já contavam com apoio jurídico, contábil, administrativo, técnico e, principalmente, estratégico, especializados. Ou seja: a “garagem” pode ter sido seu símbolo de origem, mas jamais de permanência.
A Apple, por exemplo, contou cedo com aportes financeiros e orientação de investidores como Mike Markkula, que ajudou a transformar o projeto de Jobs e Wozniak em uma empresa com metas claras. Antes mesmo de se tornar uma gigante, a Microsoft já tinha contratos bem redigidos e estratégias comerciais sólidas para licenciar seu software. O Google, nascido no campus de Stanford, recebeu apoio jurídico e contábil especializado desde o início para lidar com investimentos e propriedade intelectual.
Esses mesmos exemplos que encantam o jovem empresário, mostram que, mesmo na fase embrionária, negócios de alto potencial, além da criatividade, precisam de estrutura e conformidade.
No Brasil, por outro lado, a realidade é ainda mais desafiadora. Segundo dados da pesquisa Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo 2022, divulgada pelo IBGE, 60% das empresas nascidas no país não sobreviveram após cinco anos de existência, e, de acordo com o SEBRAE, entre os principais motivos estão a falta de planejamento, a má gestão financeira e problemas jurídicos.
Planejar significa, entre outras coisas: ter uma equipe jurídica que assegure a regularidade societária, contratos, registros de marca e proteção contra riscos legais; contadores eficientes, que mantenham as obrigações fiscais em dia, controle o fluxo de caixa e identifique as oportunidades de economia tributária; e investir em uma consultoria de gestão, para estruturas processos, otimizar recursos e estrategiar decisões.
Diante desse alarmante panorama, devemos nos atentar ao fato de que o planejamento e a presença equipes multidisciplinares não devem ser encaradas como um “luxo”, e sim como o requisito indispensável para qualquer negócio que aspire a escalar. Ou seja, não basta um fundador e uma ideia brilhante, mas uma equipe preparada que acompanhe essa genialidade.
Sonhar grande é essencial, mas é apenas o ponto de partida. Entre a primeira ideia e o sucesso consolidado, existe um longo caminho de estrutura, planejamento e acompanhamento profissional. Empresas que entendem isso não dependem de sorte: constroem o próprio futuro.
MARTINI, P. Seis a cada 10 empresas não sobrevivem após 5 anos no Brasil, diz IBGE. Disponível em: <https://valor.globo.com/brasil/noticia/2024/12/05/seis-a-cada-10-empresas-nao-sobrevivem-apos-5-anos-no-brasil-diz-ibge.ghtml>. Acesso em: 14 ago. 2025.
A taxa de sobrevivência das empresas no Brasil – Sebrae. Disponível em: <https://sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/a-taxa-de-sobrevivencia-das-empresas-no-brasil,d5147a3a415f5810VgnVCM1000001b00320aRCRD>. Acesso em: 14 ago. 2025.