Maria Eduarda Xavier e Heloísa Nogueira
A economia brasileira entra em mais uma fase de fortes tensões.
Nos últimos meses, mais do que nunca, temos observado uma confluência de fatores que vêm impondo desafios ainda maiores para o empreendedorismo brasileiro. Agora, os juros elevados, a persistente inflação e a pressão cambial que já conhecemos, somam-se a um choque externo severo: a imposição de uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos[1], o segundo principal destino das exportações brasileiras[2].
Com isso, é notável que o cenário atual é de alerta para empresas com presença em setores sensíveis à atividade econômica e alta alavancagem financeira, e especialmente, para aquelas com dependência de capital externo. A medida do presidente norte-americano Donald Trump atinge diretamente os pilares da exportação brasileira[3] – como o café, a carne bovina, o suco de laranja e o petróleo[4] – e representa uma mudança drástica nas condições econômicas em curso.
Essa conjuntura nos leva a retomar um tema crítico: como evitar a tão temida recuperação judicial?
De antemão, é importante reconhecer um fato: a crise raramente chega de forma repentina. Ela se desenvolve a passos de formiga, como fruto de más-decisões acumuladas, mudanças de cenários e tem como maior precursora a falta de uma leitura estratégica do mercado. Assim como um capitão necessita da habilidade de enxergar a tempestade ainda no longínquo horizonte, o gestor de uma empresa precisa ter o preparo para antecipar movimentos – e saber ajustar suas velas.
Portanto, as precauções para evitar a necessidade de uma recuperação judicial começam desde o fortalecimento da gestão estratégica, focando na antecipação de riscos e no domínio inequívoco sobre as finanças e estrutura operacional da empresa. Para isso, adotar boas práticas de governança corporativa, como estabelecer um sistema de controles internos eficientes e manter uma visão atualizada e prática da situação do seu negócio, é indispensável. Afinal, uma empresa bem governada consegue responder as mudanças drásticas do mercado de forma ágil, e possui mais credibilidade na hora da negociação com parceiros, credores e investidores.
Outro ponto crucial é conhecer com profundidade todos os contratos firmados, em especial os contratos bancários e as suas taxas de juros e condições de reajuste. No Brasil, muitos empresários se concentram apenas no valor das parcelas mensais, deixando de prestar a devida atenção a cláusulas de vencimento antecipado e de amortização de juros que, em momentos delicados de instabilidade, aumentarão significativamente o valor da dívida e prejudicarão a situação da companhia.
Além disso, é importante que a gestão de uma empresa tenha todas as suas dívidas levantadas, não se limitando ao fluxo de caixa comum. Habitualmente, parcelamentos e passivos antigos permanecem fora do radar no dia a dia da empresa, no entanto, são justamente essas obrigações esquecidas que emergem nos momentos de fragilidade. Por isso, a ciência desambiguizada desses detalhes é indispensável para que haja o devido controle sobre possíveis “armadilhas” financeiras.
Por fim, a sua estrutura de fornecedores e clientes deve ser alvo de um olhar ainda mais meticuloso. Qual é o grau de concentração da sua carteira? O que aconteceria se um cliente responsável por uma alta porcentagem do seu faturamento, simplesmente, deixasse de comprar? Ou se o seu principal fornecedor de matéria-prima encerrasse suas atividades?
Nesse contexto, possuir relações comerciais variadas é uma estratégia imprescindível para garantir resiliência operacional. Uma carteira concentrada e com baixa diversificação tem grandes chances de se tornar o elo vulnerável de uma empresa, e mantem suas operações mais expostas a rupturas repentinas. No entanto, uma empresa com uma carteira diversificada está mais bem posicionada para redirecionar fluxos e preservar sua receita, mesmo diante de perdas pontuais.
Se você é empresário e está lendo isto, saiba que as crises raramente chegam sem avisos, mas os sinais estão lá, e reconhecê-los a tempo faz toda a diferença. Nessas horas, contar com o olhar especializado de profissionais de confiança, como assessores jurídicos e contábeis, pode ajudar a traçar estratégias mais seguras, eficazes e realista para a sua empresa. Logo, o melhor cenário é sempre o da prevenção e não da contenção para que com planejamento e suporte técnico, você tenha margem para escolher o caminho a seguir e não ser coagido a fazer uma escolha que se tornou inevitável.
[1] FORBES, EUA Vão Taxar Produtos Brasileiros em 50%, Maior Tarifa até Agora. Disponível em: <https://forbes.com.br/forbes-money/2025/07/eua-vao-taxar-produtos-brasileiros-em-50-maior-tarifa-ate-agora/>. Acesso em: 14 jul. 2025.
[2] LIRA, R. DE. EUA é o 2o maior parceiro comercial do Brasil, mas lidera nas compras industriais. Disponível em: <https://www.infomoney.com.br/economia/eua-e-o-2o-maior-parceiro-comercial-do-brasil-mas-lidera-nas-compras-industriais/>. Acesso em: 14 jul. 2025.
[3] Tarifa de Trump: São Paulo é o mais afetado? Quais Estados mais perdem com taxação – BBC News Brasil. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwyg9nvnldpo>. Acesso em: 14 jul. 2025.
[4] Quais são os 10 produtos brasileiros mais exportados para os EUA? Saiba impacto. Disponível em: <https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/07/10/como-tarifa-de-50-dos-eua-afeta-as-exportacoes-brasileiras.ghtml>. Acesso em: 14 jul. 2025.