Por Maria Eduarda X. Soares e Heloísa Nogueira
A última edição de 2025 se encerra com um debate, à primeira vista, periférico, sobre a escolha dos meios de pagamento em supermercados. A recente notícia sobre um supermercado em São Paulo que não aceita dinheiro nem Pix ilustra um movimento mais amplo de centralização das relações de consumo, como uma redefinição silenciosa das regras de acesso ao mercado.
A Gomo Coop surge quase como um experimento econômico. A cooperativa se organiza a partir de um modelo de consumo compartilhado, inspirado em experiências internacionais, no qual os consumidores também participam da operação do negócio. Essa estrutura altera a dinâmica tradicional entre cliente, trabalhador e gestor, redistribuindo funções e responsabilidades.
Do ponto de vista econômico, a redução de custos operacionais por meio do trabalho dos próprios cooperados permite margens menores e preços potencialmente mais competitivos. Entretanto, paralelamente, diferentemente de uma empresa tradicional, esse tipo de estrutura exige um nível ainda mais alto de engajamento e preparo para se manter, afinal, não há hierarquia rígida nem capital externo para absorver erros.
O contraste entre o supermercado altamente automatizado e a cooperativa de consumo revela mais sobre o momento econômico do que sobre preferências individuais. Ambos respondem, à sua maneira, às mesmas pressões do aumento de custos, da complexidade regulatória das margens apertadas e dos consumidores mais sensíveis aos preços. Enquanto um modelo busca eficiência por meio da centralização e da tecnologia, o outro aposta na redistribuição de tarefas e na participação direta dos envolvidos.
A discussão sobre meios de pagamento se apresenta, nesse cenário, como um sintoma. Dentro desse contexto, é possível observar que a exclusão do dinheiro físico e do Pix não é apenas uma escolha técnica, mas uma decisão que redefine quem pode acessar determinado espaço de consumo e sob quais condições.
Ao mesmo tempo, modelos cooperativos levantam questionamentos sobre escala, replicabilidade e viabilidade em contextos urbanos complexos e heterogêneos, o que nos faz refletir como nenhuma das abordagens é isenta de riscos ou contradições.
Assim, a reflexão que fica para o fechamento de 2025 não é qual modelo deve prevalecer, mas quais critérios estamos usando para avaliá-los. Até que ponto conveniência justifica a redução de opções? Onde termina a eficiência e começa a exclusão? E qual é o papel do consumidor nesse processo, como um agente ativo de escolha ou mero usuário de sistemas cada vez mais fechados?